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segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Oficina Francisco Biquiba dy Lafuente Guarany










Prezado companheiros Gustavo Maia, Vinicius Maia e Lis Brasil


Em virtude, da ocasião do I Centenário em Santa Maria, tomo liberdade para chegar-me até vossas senhorias, e delinear os nossos trabalhos de oficineiros do vale do São Francisco.


O maior gênio da criatividade de esculpir carrancas da história do médio São Francisco, chama-se Francisco Biquiba Dy Lafuente Guarany, nascido em dois de abril de 1884, em Santa Maria da Vitória, filho de Cornélio Biquiba dy Lafuente e Marcelina do Espírito Santo, apelidado de Guarany por ser bisneto de índia.


Esculpiu durante toda sua vida, cerca de 800 carrancas. Sua primeira carranca foi esculpida aos 17 anos em 1901 para a barca Tamandaré. Guarany apresentava traços fisionômicos e na cor a mistura das raças, que formaram o povo brasileiro. Era magro, de pele morena e estatura baixa. Aprendeu a ler e escrever com padres. Apesar de pouco estudo, era capaz de proferir discursos públicos, entrevista em redes de televisão e palestras sobre seus trabalhos. E sobre o rio São Francisco, narrava suas histórias e suas lendas, que foram fonte de inspiração para o seu sucesso como artesão.


Até o ano de 1940, quando finalizou o ciclo das barcas, ele já havia produzido cerca de oitenta carrancas. A partir desta data ele parou de esculpir figuras de proa e passou a fazer peças utilitárias e decorativas. Trabalhou também como carpinteiro, marceneiro e tanoeiro.


Segundo os críticos da arte, suas obras são de grande valor artístico. Guarany, como todos os artistas, sofreu grande influência cultural regional e estrangeira. Essas mudanças são vistas a partir de suas obras que, dependendo da época em que foram produzidas possuem aspectos diferenciados. Umas com maior potencial artístico e outras com menos vigor. Mas todas concentradas nos aspectos sociocultural e mitológico da região do Médio São Francisco.


Em 1968, recebeu o diploma de membro correspondente da Academia Brasileira de Belas Artes e esculpiu carrancas até fins de 1979. Foi objeto de estudo do Engenheiro Paulo Pardal, que escreveu o livro Carrancas do São Francisco. Rio de Janeiro: Funarte, 1979 e de Clarival Valladares do Prado; Guarany: 80 anos de carrancas. Rio de Janeiro: Barlendis, 1981. Foi por inúmeras vezes entrevistado pela Rede Globo, para o programa Fantástico e Globo Repórter.


Morreu no dia 05 de maio de 1985, dias antes do seu óbito em entrevista par o Jornal Tribuna da Bahia, ele desabafa, que “tudo ficou na promessa e o governo o abandonou”.


Diante desse descaso político cultural e para dar continuidade da obra de Guarany fundamos uma Oficina de Carrancas - Oficina Francisco Biquiba Dy Lafuente Guarany - no mesmo local onde ele esculpia as suas primícias figuras de proa, na oficio atendemos alunos de escolas públicas que se interessam pelo o oficio de carranqueiro, arte que predominou nas cidades ribeirinhas do vale do São Francisco e Bacia do Rio Corrente, também temos um projeto de reflorestamento das árvores que utilizamos para esculpir as carrancas (cedro e umburana), para que no futuro teremos matéria prima para tal ação, e de certa fora é uma maneira de retribuir à natureza a madeira que nos foi dado.


A entidade é composta pela seguinte diretoria: Presidente – Júnior Oliveira Guarany (neto do escultor Francisco Biquiba de Lafuente Guarany), Vice – Maria Mercês Trade, Tesoureiro – Josué Dias e Secretário - Reinaldo Moreira dos Santos, estes diretores e propagadores da idéia lutam diuturnamente juntamente com o Ponto de Cultura da Bacia do Corrente, para a manutenção da Oficina Francisco Biquiba de Lafuente Guarany, que merece todo o nosso empenho e comprometimento, mesmo assim deparamos com empecilhos que não permitem angariar recursos monetários para a manutenção da oficina deste notável artista Francisco Biquiba de Lafuente Guarany, que o Brasil consagrou como o maior dos carranqueiros e artesãos multiformes.


Pela magnitude do alvitre apreciada por Paulo Pardal e outros amantes da obra, sentimos a vontade para divulgar esta causa tão nobre deste admirável gênio, e o tempo é propício é agora. Em visitinhas ao blog Curimã, fiquei alegre em ver que vocês divulgam as obras dos santa-marienses Francisco Guarany e Juarandi Assis.
Visite-nos http://oficinafranciscodlafuenteguarany.blogspot.com e conheça nossos trabalhos.

Atenciosamente,



Os Dirigentes da Oficina Francisco Biquiba Dy Lafuente Guarany

Santa Maria da Vitória - BA - 2/8/2009

domingo, 24 de maio de 2009

CARRANCAS DO RIO SÃO FRANCISCO

Pintura: Márcia Berenguer Cabral



As famosas carrancas do rio São Francisco constituem um enigma de nossa arte popular, na qual ocupam um lugar de especial destaque, tanto pela notável expressão artística como, principalmente, por sua dupla originalidade. As barcas do São Francisco são as únicas embarcações populares de povos ocidentais que apresentaram, de modo generalizado, figuras de proa, pelo menos nos últimos séculos. E estas constituem exemplo único no mundo de esculturas de proas zooantropomorfas. A originalidade é o mais importante atributo de uma obra de arte. Segundo Arnold Hausen, “para tener em absoluto calidad artística, uma obra de arte tiene que abrir lãs puertas a uma visión el mundo nueva e peculiar”.








A origem das carrancas do São Francisco deve ter sido a imitação da decoração de navios de alto-mar, vistos nas capitais das Províncias da Bahia e do país pelos pequenos nobres e fazendeiros do São Francisco em suas viagens à civilização. Devemos agradecer ao isolamento em que viviam os habitantes do médio São Francisco o fato de terem criado um tipo de figura de proa inédito em todo mundo: peças de olhos esbugalhados, misto de homem, com suas sobrancelhas arqueadas, e de animal, com sua expressão feroz e sua cabeleira leonina.





Fecha-se assim o ciclo: a evolução das embarcações primitivas levou as figuras de proa, surgidas basicamente com conotações místicas, aos grandes navios, onde sua função era decorativa. E a influência dos grandes navios levou à imitação das suas figuras de proa, com intuito inicialmente decorativo, em pequenas embarcações de uma pequena sociedade rural primitiva. Seus membros, entretanto, deram frequentemente a essas figuras uma conotação mística. Em linhas gerais, a evolução esboçada para as figuras de proa é a própria evolução da arte.




Carrancas do famoso escultor Francisco Guarany



É Wilson Lins quem nos diz que nas noites de conversa, após o jantar, isolados em um barranco, contavam histórias de assombração e encantamento. “Religiosos e cheios de temores pelo desconhecido: se é remeiro, o seu remo quase sempre tem uma cruz ou símbolo de Salomão desenhados na pá.” E acrescenta que a crendice é muito forte, mas as assombrações locais não têm os requintes de perversidades das de outras regiões do país. “ Dos mitos aquáticos do vale, o Caboclo-d’Água e a Mãe-d’Água são os mais conhecidos”. Mas ainda há o Minhocão (ou Surubim-Rei). Estes três “enchem de leves pavores noturnos a gente da beira do rio...”.


Pintura: Jurandir Assis



Esta forte crendice permite melhor compreender por que o povo ribeirinho, inclusive alguns escultores de carrancas, atribuiu às figuras de proa a missão de espantar os duendes do rio. Daí o freqüente aspecto assustado e assustador das carrancas; de quem se apavorou com o duende que viu e, ao mesmo tempo, quer aterrorizá-lo com sua fisionomia retesa, de olhos esbugalhados.








Pode-se afirmar que as primeiras carrancas datam de 1875-1880, embora seu uso no médio São Francisco só tenha se generalizado neste século. É interessante notar que a Academia de Belas Artes da Bahia foi fundada em 1876, sendo possível que a repercussão deste fato, no São Francisco, tenha influído na decoração das barcas.








Francisco Guarany foi o escultor de carrancas que mais produziu. O vigor da escultura primitiva de Guarany, marcado pelo fantástico, resulta de sua autenticidade. Capingão, o cavalo encantado, Curupema, a índia que vira onça, Megatério, o animal pré-histórico e todas as demais carrancas estão em seu mundo interior. Outros grandes escultores foram Sebastião Branco, de Juazeiro, Moreira do Prado, de Januária e Afrânio, de Barreira.



Foto: Rafael Medeiros


As carrancas do São Francisco são uma manifestação artística coletiva, com caracteres comuns, respeitadas as individualidades de cada artista, como não se encontra em nenhum outro local ou época. Fruto da criação de uma cultura e de uma região isoladas do resto do país e do mundo, cujos artistas populares, a partir da idéia de esculpir uma figura de proa, criaram soluções plásticas próprias, de elevado conteúdo artístico e emocional, que provocam um verdadeiro impacto. Possivelmente até negativo, em alguns, mas esta é uma das características de uma verdadeira obra de arte: criar o impacto. Pode haver quem não aprecie as carrancas, mas jamais quem a elas fique indiferente.


Bibliografia: PARDAL, Paulo. Carrancas do São Francisco. Rio de Janeiro: Funarte, 1979.